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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

As Curvas da Estrada de Santos

Uma visita comovente foi a que nos fez Roberto Carlos. [...] Roberto veio com Nive, sua primeira mulher, e nós sentíamos nele a presença simbólica do Brasil. Como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a baixada brasileira em Londres e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas de esquerda, que a princípio não nos entenderam e agora queriam nos mitificar: ele era o Brasil profundo. Conversando sobre a gravação de seu novo disco, Roberto pegou meu violão e cantou - dizendo, sem nenhuma insegurança, que iria nos agradar - "As Curvas da Estada de Santos". Essa canção extraordinária, cantada daquele jeito por Roberto, sozinho ao violão, na situação em que todos nos encontrávamos, foi algo avassalador para mim. Eu chorava tanto e tão sem vergonha que, não tendo um lenço nem disposição de me afastar dali para buscar um, assoei o nariz e enxuguei os olhos na barra do vestido preto de Nice, enquanto Roberto repetia com ternura: "Bobo, bobo."

Caetano Veloso, Verdade Tropical, p. 415

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