Caetano, em plena ditadura, no primeiro carnaval na Bahia depois de ter passado os dois anteriores no exílio e outro na cadeia:
Depois que o sol se pôs atrás da ilha de Itaparica, algo começou a surgir no topo da ladeira da Montanha. Eu, aparentemente o primeiro a ver, perguntei aos amigos próximos o que seria aquela forma cônica que aparecia por trás do vértice da balaustrada, no ponto mais baixo da praça, que é onde ela se encontra com o ponto mais alto da ladeira da Montanha. Não imaginávamos que pudesse ser um trio elétrico - eles não entram na praça por ali e não o fazem em silêncio. Houve uma movimentação para identificar o objeto. Parecia um avião pondo o bico no ângulo da ladeira. Era o caminhão do trio elétrico Tapajós que se apresentava em forma de foguete espacial. Tão logo se mostrou inteiro aos foliões na praça, acendendo suas luzes, os músicos começaram a tocar "Chuva, Suor e Cerveja". Imediatamente caiu uma chuva forte que durou toda a noite. A multidão começou a cantar e dançar sob a forte chuva e eu, chorando e rindo, vi, inscrita no flanco anterior do foguete, a palavra inventada pelo pessoal do trio cujo caminhão agora passava bem perto de nós, subindo para a rua Chile: CAETANAVE. [...] A imagem da espaçonave , que trazia a mitologia das viagens siderais tão típica daquela época; o renascimento da grande canção de carnaval se dando por meu intermédio; o milagre da chuva; tudo compunha uma festa completa de recepção para mim por parte do Brasil que falava direto ao fundo do imaginário.
[...] Dali eu via os pingos de chuva que brilhavam à luz da decoração das ruas: se olhássemos para cima, tínhamos a perfeita impressão de estar mergulhando aceleradamente, por entre as estrelas, no espaço sideral. Embaixo, na rua, eu via pela primeira vez a multidão do carnaval de uma distância que revelava sua força e seu mistério. Depois de tocar "Atrás do trio elétrico", o Tapajós voltou a tocar "Chuva, Suor e Cerveja". Senti alguma coisa bater em meu rosto que não era uma gota de chuva. Aproximei a mão para descobrir o que era. A coisa voou para meu peito e só aí é que Roberto e eu percebemos que se tratava de uma esperança.
Cadernos de Música
Coisas que eu descubro por aí e acho que valem a pena ser guardadas
discos
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Sobre Tom Zé
Quando afinal nos conhecemos, ele me cativou pelo seu ar de sertanejo, por suas observações pseudomal--humoradas, expressas num sotaque rural que mais realçava do que escondia a elegância clássica de seu português culto e correto. Seu físico de duende mameluco, de personagem de lenda cabocla confirmava sua condição de pessoa especial. Tom Zé tem uns olhos muito vivos, como que a provar que uma intensíssima concentração de energia é a razão de ele ser tão miúdo.
(Verdade Tropical, página 286)
(Verdade Tropical, página 286)
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
Gal
"Gal tinha vindo da Bahia, como eu, na esteira de Bethânia e Gil, para tentar profissionalizar-se. Ela nunca tinha querido nada em sua vida a não ser cantar. Era-lhe inimaginável querer ser outra coisa que não cantora. Gil formara-se em administração e exercia a profissão; Bethânia sonhara em ser atriz e chegara a escrever contos e fazer esculturas de madeira e cobre; eu já fora pintor, quisera ser professor e ainda queria ser cineasta; mas ela seria cantora ou nada mais. Desde criança - Dedé contava - Gal usava as panelas da cozinha para fazer o som de sua voz voltar ampliado aos seus próprios ouvidos, e assim poder exercer melhor controle sobre sua emissão, como se estivesse num estúdio de gravação."
(Caetano Veloso, Verdade Tropical, p. 151)
(Caetano Veloso, Verdade Tropical, p. 151)
As Curvas da Estrada de Santos
Uma visita comovente foi a que nos fez Roberto Carlos. [...] Roberto veio com Nive, sua primeira mulher, e nós sentíamos nele a presença simbólica do Brasil. Como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a baixada brasileira em Londres e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas de esquerda, que a princípio não nos entenderam e agora queriam nos mitificar: ele era o Brasil profundo. Conversando sobre a gravação de seu novo disco, Roberto pegou meu violão e cantou - dizendo, sem nenhuma insegurança, que iria nos agradar - "As Curvas da Estada de Santos". Essa canção extraordinária, cantada daquele jeito por Roberto, sozinho ao violão, na situação em que todos nos encontrávamos, foi algo avassalador para mim. Eu chorava tanto e tão sem vergonha que, não tendo um lenço nem disposição de me afastar dali para buscar um, assoei o nariz e enxuguei os olhos na barra do vestido preto de Nice, enquanto Roberto repetia com ternura: "Bobo, bobo."
Caetano Veloso, Verdade Tropical, p. 415
Caetano Veloso, Verdade Tropical, p. 415
Aquele Abraço
"Muito mais vivo em minha memória está o momento em que Gil me mostrou "Aquele Abraço", canção que ele cantaria pela primeira vez em público naquele show. Estávamos na sala da casinha da Pituba e o samba me fez chorar. O brilho e a fluência das frases, a evidência de que se tratava de uma canção popular de sucesso inevitável, o sentimento de amor e perdão impondo-se sobre a mágoa, e sobretudo o dirigir-se diretamente ao Rio de Janeiro, cidade que sinto tão intimamente minha [...] tudo isso me abalava fortemente e eu soluçava de modo convulsivo. No show, a plateia também foi tomada pela música, e cantou-a com Gil como se já a conhecesse de muito tempo. O lugar de onde a ironia se punha nessa canção - que parecia ser um canto de despedida do Brasil (representado pelo Rio, como é tradição) sem sombra de rancor - fazia a gente se sentir à altura das dificuldades que enfrentava. Aquele Abraço era, nesse sentido, o oposto do meu estado de espírito, e eu entendia comovido, no fundo do poço da depressão, que aquele era o único modo de assumir um tom de "bola pra frente" sem forçar nenhuma barra."
Caetano Veloso, Verdade Tropical, P. 410
Caetano Veloso, Verdade Tropical, P. 410
Caetano sobre Gil
"É preciso, para entender essas minhas suposições, que se saiba melhor quem é, para mim, Gilberto Gil. Eu teria que me deter, mais cedo ou mais tarde, na apreciação dessa figura - tão central nessa história e tão unida à minha que, de certa forma, constituímos juntos uma espécie de entidade.
Fiquei intimidado com a possibilidade real do encontro: que graça poderia ter eu para "Beto"? E, dadas minhas limitações musicais e meu desinteresse por futebol ou outros temas masculinos, que assuntos em comum eu poderia ter com ele para sustentar uma conversa? Temi um encontro combinado resultando em minutos de silêncio constrangedor.
Roberto Santana me apresentou a Gil num encontro casual na rua Chile e nós todos nos sentimos inteiramente à vontade, cada um querendo falar mais do que o outro. [...] Algumas vezes, ao longo dos anos, ouvi, comovido, Gil dizer que ao me encontrar se sentiu saindo de uma espécie de solidão: ao me ver e ouvir teve certeza de que achara verdadeira companhia.
Fiquei intimidado com a possibilidade real do encontro: que graça poderia ter eu para "Beto"? E, dadas minhas limitações musicais e meu desinteresse por futebol ou outros temas masculinos, que assuntos em comum eu poderia ter com ele para sustentar uma conversa? Temi um encontro combinado resultando em minutos de silêncio constrangedor.
Roberto Santana me apresentou a Gil num encontro casual na rua Chile e nós todos nos sentimos inteiramente à vontade, cada um querendo falar mais do que o outro. [...] Algumas vezes, ao longo dos anos, ouvi, comovido, Gil dizer que ao me encontrar se sentiu saindo de uma espécie de solidão: ao me ver e ouvir teve certeza de que achara verdadeira companhia.
Ele criou a imagem de mim como mestre [...] e tornou-se, ele sim, meu verdadeiro mestre."
Caetano Veloso, Verdade Tropical
Caetano Veloso, Verdade Tropical
domingo, 14 de agosto de 2016
Sampa Midnight
Ou pequenas genialidades nas letras de Itamar Assumpção
O novo não me choca mais
Nada de novo sob o sol
O que existe é o mesmo ovo de sempre
Chocando o mesmo novo
(Prezadíssimos Ouvintes)
Já tive muitos critérios
Hoje só vários delírios
(Ideia Fixa)
Nada pode tudo na vida.
Por que toda estrela pisca no céu
E o cometa risca?
Por que você não se arrisca, meu bem
E vem, belisca e petisca?
Por que teu beijo faísca?
(Navalha na Liga)
São três horas da manhã já do outro dia
Eu pensando no futuro enquanto você dormia
Se eu morresse amanhã qual que será qual que seria
Da minha mãe meus irmãos
Minha mulher, minhas filhas
Minhas músicas, minhas lindas orquídeas
Sono que é bom eu não tinha
Mas tinha bastante dúvidas
Espinhos grilos conflitos confrontos e suicidas
Porque será que da morte
Não há caminho que torne?
Enquanto eu pensava nisso ocorreu-me o seguinte
Que eu poderia viver oitocentos milhões de anos
Neste planeta na gandaia e na folia
Louco de tanta alegria
Totalmente à revelia
(Totalmente à Revelia)
Não adianta vir arreganhando os dentes para mim
Porque sei que isso não é um sorriso
Entre o sim e o não existe um vão
Não sei se gosto de mim
Não sei se gosto de você
Mas gosto de nós
(Chavão Abre Porta Grande)
Eu andava certa noite dia 13, sexta
Triste sozinho desnorteado perdido, cabreiro, besta
Resolvi sair por aí chutando pedras
Contando estrelas, cometas
Por dentro mil pensamentos
Perguntas do tipo
Que vida é essa?
Uma voz dentro da noite
Respondeu-me como assombração
Isso é tudo que te resta
Eu disse: até amanhã
Tenho muitos compromissos
De madrugada vou fazer um curso de dança
A voz falou (?)
Você vai mas você volta
Um disco voador
De mim se aproximou
De dentro dele uma voz
Aconselhou-me
Sabe o que você faz?
Pergunta pra essa outra voz
Que parece assombração, o seguinte:
E o quico?
E o quico tenho com isso? (E o Quico)
O novo não me choca mais
Nada de novo sob o sol
O que existe é o mesmo ovo de sempre
Chocando o mesmo novo
(Prezadíssimos Ouvintes)
Já tive muitos critérios
Hoje só vários delírios
(Ideia Fixa)
Nada pode tudo na vida.
Por que toda estrela pisca no céu
E o cometa risca?
Por que você não se arrisca, meu bem
E vem, belisca e petisca?
Por que teu beijo faísca?
(Navalha na Liga)
São três horas da manhã já do outro dia
Eu pensando no futuro enquanto você dormia
Se eu morresse amanhã qual que será qual que seria
Da minha mãe meus irmãos
Minha mulher, minhas filhas
Minhas músicas, minhas lindas orquídeas
Sono que é bom eu não tinha
Mas tinha bastante dúvidas
Espinhos grilos conflitos confrontos e suicidas
Porque será que da morte
Não há caminho que torne?
Enquanto eu pensava nisso ocorreu-me o seguinte
Que eu poderia viver oitocentos milhões de anos
Neste planeta na gandaia e na folia
Louco de tanta alegria
Totalmente à revelia
(Totalmente à Revelia)
Não adianta vir arreganhando os dentes para mim
Porque sei que isso não é um sorriso
Entre o sim e o não existe um vão
Não sei se gosto de mim
Não sei se gosto de você
Mas gosto de nós
(Chavão Abre Porta Grande)
Eu andava certa noite dia 13, sexta
Triste sozinho desnorteado perdido, cabreiro, besta
Resolvi sair por aí chutando pedras
Contando estrelas, cometas
Por dentro mil pensamentos
Perguntas do tipo
Que vida é essa?
Uma voz dentro da noite
Respondeu-me como assombração
Isso é tudo que te resta
Eu disse: até amanhã
Tenho muitos compromissos
De madrugada vou fazer um curso de dança
A voz falou (?)
Você vai mas você volta
Um disco voador
De mim se aproximou
De dentro dele uma voz
Aconselhou-me
Sabe o que você faz?
Pergunta pra essa outra voz
Que parece assombração, o seguinte:
E o quico?
E o quico tenho com isso? (E o Quico)
Assinar:
Postagens (Atom)