discos

discos

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Aquele Abraço

"Muito mais vivo em minha memória está o momento em que Gil me mostrou "Aquele Abraço", canção que ele cantaria pela primeira vez em público naquele show. Estávamos na sala da casinha da Pituba e o samba me fez chorar. O brilho e a fluência das frases, a evidência de que se tratava de uma canção popular de sucesso inevitável, o sentimento de amor e perdão impondo-se sobre a mágoa, e sobretudo o dirigir-se diretamente ao Rio de Janeiro, cidade que sinto tão intimamente minha [...] tudo isso me abalava fortemente e eu soluçava de modo convulsivo. No show, a plateia também foi tomada pela música, e cantou-a com Gil como se já a conhecesse de muito tempo. O lugar de onde a ironia se punha nessa canção - que parecia ser um canto de despedida do Brasil (representado pelo Rio, como é tradição) sem sombra de rancor - fazia a gente se sentir à altura das dificuldades que enfrentava. Aquele Abraço era, nesse sentido, o oposto do meu estado de espírito, e eu entendia comovido, no fundo do poço da depressão, que aquele era o único modo de assumir um tom de "bola pra frente" sem forçar nenhuma barra."

Caetano Veloso, Verdade Tropical, P. 410

Nenhum comentário:

Postar um comentário