Caetano, em plena ditadura, no primeiro carnaval na Bahia depois de ter passado os dois anteriores no exílio e outro na cadeia:
Depois que o sol se pôs atrás da ilha de Itaparica, algo começou a surgir no topo da ladeira da Montanha. Eu, aparentemente o primeiro a ver, perguntei aos amigos próximos o que seria aquela forma cônica que aparecia por trás do vértice da balaustrada, no ponto mais baixo da praça, que é onde ela se encontra com o ponto mais alto da ladeira da Montanha. Não imaginávamos que pudesse ser um trio elétrico - eles não entram na praça por ali e não o fazem em silêncio. Houve uma movimentação para identificar o objeto. Parecia um avião pondo o bico no ângulo da ladeira. Era o caminhão do trio elétrico Tapajós que se apresentava em forma de foguete espacial. Tão logo se mostrou inteiro aos foliões na praça, acendendo suas luzes, os músicos começaram a tocar "Chuva, Suor e Cerveja". Imediatamente caiu uma chuva forte que durou toda a noite. A multidão começou a cantar e dançar sob a forte chuva e eu, chorando e rindo, vi, inscrita no flanco anterior do foguete, a palavra inventada pelo pessoal do trio cujo caminhão agora passava bem perto de nós, subindo para a rua Chile: CAETANAVE. [...] A imagem da espaçonave , que trazia a mitologia das viagens siderais tão típica daquela época; o renascimento da grande canção de carnaval se dando por meu intermédio; o milagre da chuva; tudo compunha uma festa completa de recepção para mim por parte do Brasil que falava direto ao fundo do imaginário.
[...] Dali eu via os pingos de chuva que brilhavam à luz da decoração das ruas: se olhássemos para cima, tínhamos a perfeita impressão de estar mergulhando aceleradamente, por entre as estrelas, no espaço sideral. Embaixo, na rua, eu via pela primeira vez a multidão do carnaval de uma distância que revelava sua força e seu mistério. Depois de tocar "Atrás do trio elétrico", o Tapajós voltou a tocar "Chuva, Suor e Cerveja". Senti alguma coisa bater em meu rosto que não era uma gota de chuva. Aproximei a mão para descobrir o que era. A coisa voou para meu peito e só aí é que Roberto e eu percebemos que se tratava de uma esperança.