discos
quarta-feira, 16 de março de 2016
quarta-feira, 9 de março de 2016
Naná agora tá batucando no céu
Milton fala sobre o amigo Naná Vasconcelos:
"Quando cheguei ao Rio encontrei Dom Um Romão, Edison Machado e Victor Manga. Ficava difícil pra mim, que vim do Nordeste, me encaixar naquela cena. Então encontrei Milton, que precisava de mim, como eu precisava dele". (Naná para a Modern Drummer)
"Um dos momentos mais bonitos da minha vida foi quando Naná Vasconcelos chegou sem avisar na casa onde eu morava, na zona sul do Rio. Isso aconteceu nos idos de 1968. Ainda na porta, mal nos cumprimentamos e ele foi logo dizendo:
__Vim de Recife pra tocar com você.
Mesmo desconfiado, o deixei entrar. Naná foi direto pra cozinha, catou tudo que viu pela frente e começou a fazer um som incrível com panelas, frigideiras, garrafas e copos. Nessa época, eu estava gravando um disco pela Odeon, e assim que acabou a primeira música com ele tocando as panelas, perguntei:
__Naná, o que você vai fazer amanhã?
No dia seguinte, levei Naná para o estúdio comigo. Era o terceiro disco da minha carreira. Entre as gravações, ele me contou melhor a história de que tinha vindo de "Recife só pra tocar comigo". E sempre que o via contando esse caso em entrevistas, as palavras dele me faziam sentir o cara mais sortudo do mundo. Imagine o privilégio: uma alma elevada como a de Naná vir especialmente ao seu encontro? Uma benção para poucos.
Depois daquele encontro no fim dos anos 60, Naná e eu vivíamos sempre juntos. Levei ele ao encontro dos Borges em BH, gravamos com Som Imaginário, no primeiro disco Clube da Esquina, e dali pra frente jamais nos separamos.
Outra lembrança forte com Naná da qual eu nunca me esqueço foram nossas temporadas nos EUA. Numa delas, passamos um tempo em Nova York num apartamento com vista para o imponente Empire State. Nos primeiros dias, Naná percebeu que as luzes do edifício se acendiam religiosamente às 18h. Ele então teve a ideia de descer numa loja de eletrônicos e comprar um espalhafatoso botão liga-desliga e o instalou num lugar de destaque na sala do apartamento. E todas as vezes em que Naná estava em casa perto da "hora do Angelus" (principalmente em dias de visita), ele chegava perto do botão e fazia seu número de "acender" o Empire State, para delírio e gargalhadas gerais.
Na abertura do Carnaval de Recife de 2013, Naná me convidou para cantar com ele no tradicional encontro dos grupos de Maracatu. Foi a última vez em que tocamos juntos. Na noite anterior, Carminho e eu fomos até sua casa, em Olinda, e Naná nos recebeu com uma grande festa. Tocou de tudo, contou histórias e passou praticamente o tempo todo me agradecendo por ter vindo ao carnaval. Mas era eu quem devia aquilo a ele, foi uma das noites mais emocionantes que tive num palco. E depois da abertura dos Maracatus - Naná, com uma generosidade sem tamanho - arrumou os instrumentos no chão - como gostava de fazer - e se juntou aos músicos de minha banda (Lincoln Cheib, Wilson Lopes e Gastão Villeroy) tocando o show inteiro com uma energia rara e tirando um som de tamanha beleza que nenhum outro músico do mundo seria capaz. Naná fazia mágica, estava além da música. Ele sim, uma força extrema da natureza.
Da última vez que nos falamos, ele tinha acabado de sair do hospital. Mas nem conseguimos conversar nada sério, Naná não parava de contar suas histórias, uma mais engraçada que a outra. E eu que tinha ligado pra dar uma força, acabei recebendo uma carga de energia positiva que só poderia vir de um ser iluminado como Naná.
Assim era Naná, e exatamente assim que eu quero lembrar dele.
Milton, Rio, 9 de março de 2016
Se eu pudesse renovar os votos de ano novo
Quero um refúgio que seja seguro
Uma nuvem branca sem pó, nem fumaça
Quero um mundo feito sem porta ou vidraça
Quero uma estrada que leve à verdade
Quero a floresta em lugar da cidade
Uma estrela pura de ar respirável
Quero um lago limpo de água potável
Quero voar de mãos dadas com você
Ganhar o espaço em bolhas de sabão
Escorregar pelas cachoeiras
Pintar o mundo de arco-íris
Quero rodar nas asas do girassol
Fazer cristais com gotas de orvalho
Cobrir de flores campos de aço
Beijar de leve a face da lua
Quero a floresta em lugar da cidade
Uma estrela pura de ar respirável
Quero um lago limpo de água potável
Quero voar de mãos dadas com você
Ganhar o espaço em bolhas de sabão
Escorregar pelas cachoeiras
Pintar o mundo de arco-íris
Quero rodar nas asas do girassol
Fazer cristais com gotas de orvalho
Cobrir de flores campos de aço
Beijar de leve a face da lua
A história por trás de Cajuína
A composição Cajuína, de Caetano Veloso, bem podia ser um xote de amor ou uma homenagem à capital do Piauí: E éramos olharmo-nos intacta retina / A cajuína cristalina em Teresina. Mas quem ouve atentamente o primeiro verso já repara que o baiano fala de questões mais transcendentais:Existirmos, a que será que se destina?
É verdade que a música nasceu, sim, em Teresina. No final dos anos 1970, Caetano passava por lá a trabalho e encontrou o pai do poeta Torquato Neto, natural da cidade. Àquela altura, porém, o amigo tropicalista suicidara-se havia alguns anos. Ao ver o pai dele, seu Eli, o parceiro não foi capaz de conter as lágrimas: “Na época do acontecido, me senti um tanto amargo e triste, mas pouco sentimental. Quando encontrei doutor Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar”, conta no livro Verdade Tropical.
Caetano impressionou-se com a serenidade de Eli ao consolá-lo, entre retratos do filho, quando o natural era que o contrário acontecesse. O homem serviu uma cajuína, bebida típica da região. Colheu uma rosa no jardim e deu para a visita. Na cabeça do compositor, o ato já começava a se traduzir num baião alegre e calmo, que estaria pronto nos dias seguintes: Pois quando tu me deste a rosa pequenina / Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina / Do menino infeliz não se nos ilumina / Tampouco turva-se a lágrima nordestina.
Caetano resume: “Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso”.
O dia em que uma crítica me fez gostar de um álbum
Não é exagero comparar João Gilberto aos Beatles. Ambos os artistas inventaram o universo musical que habitamos hoje, criando amálgamas sonoros que moldaram os ouvidos da segunda metade do século 20. De Liverpool, os quatro heróis britânicos ruminaram a música de rádio dos anos 50 (e não apenas o rock, mas também soul, standards, doo-wop, rockabilly, country, surf music, folk e R&B), devolvendo-a ao resto do mundo como uma sonoridade sólida, coesa e autoral – que mais tarde o mundo chamaria apenas de “rock". Sua sacada: reduzir todo o instrumental a duas guitarras, baixo e bateria e mesmo assim manter o som cheio e vibrante. De Juazeiro, no norte da Bahia, nosso herói mascou o rádio dos anos 30 e 40 (e não apenas o samba, mas também jazz, músicas tradicionais, conjuntos vocais, samba-canção, música sertaneja, choro, música de fossa e o batuque), traduzindo-o para o resto do mundo como uma sonoridade igualmente sólida, coesa e autoral – que mais tarde chamaríamos apenas de “bossa nova". Sua grande sacada: reduzir todo o instrumental apenas para seu violão. Esse é um caso à parte. Enigmático, cheio de acordes dissonantes e inusitados, seu violão reinventava a tradição rítmica brasileira ao atrelá-la à harmonia moderna para sempre. Por cima, a voz. Que voz. Nem rompantes de divas de jazz, lamentos dramáticos do samba-canção ou cantos bon vivant dos clones de Sinatra. João canta com a intensidade de quem conversa, calmo e sereno, deixando o som vibrar o mínimo possível. Contou com Jobim na coordenação desse seu primeiro disco quando posicionou estrategicamente as coordenadas de seu novo mapa: seis partes de novos compositores, duas de Ary Barroso e uma de Dorival Caymmi, além de um tema quase religioso e duas quase instrumentais. Os Beatles injetavam juventude, velocidade e brilho a uma cultura popular que descobria os poderes da comunicação global. João veio logo depois, pedindo calma, mas não como um bedel. Com seu violão, plantou a semente de uma árvore de silêncio, que se infiltrou no imaginário mundial e acompanha a genealogia da música do fim do século. E se hoje não estamos berrando uns com os outros, culpe João.
Fonte: http://rollingstone.uol.com.br/listas/os-100-maiores-discos-da-musica-brasileira/bichega-de-saudadei-joao-gilberto-1959-odeonb/
Fim de Festa - Naná Vasconcelos e Itamar Assumpção
Se houvesse uma forma elegantemente cruel de terminar um relacionamento, seria essa música aqui.
Por trás da letra: Drão
O compositor escreveu a música em 1981, poucos dias depois da separação. A letra é uma parábola sobre o amor, que não morre – e sim, se transforma. Assim como o trigo, ele nasce, vive e renasce de outra forma. Há referências à cama de tatame onde o casal costumava dormir (“cama de tatame pela vida afora”) e aos três filhos frutos do relacionamento deles (“os meninos são todos sãos”).
O curioso é que o próprio Gil era um dos poucos da roda de amigos que não chamava a mulher de Drão. Ele e Caetano a chamavam de “Drinha”.
O apelido foi dado por Maria Bethânia. Drão vem do aumentativo de Sandra, a terceira mulher de Gilberto Gil. Ao virar título de um dos maiores sucessos do compositor, o apelido incomum sempre foi confundido com a palavra "grão". Sandra Gadelha desfaz o mal-entendido e se assume como inspiração dos versos densos, compostos em 1981, em plena separação do casal. Gil diz que foi bem difícil escrever a letra, uma poesia profunda e sutil do amor e do desamor. "Como é que eu vou passar tanta coisa numa canção só?", questiona-se Gil no livro "Gilberto Gil-Todas as Letras" (Cia. das Letras).
Os dois foram casados por 17 anos e tiveram três filhos: Pedro, Maria e Preta. Hoje, aos 53 anos, Sandra mora sozinha no Rio, sonha em montar uma pousada e se lembra com carinho da canção que marcou o fim de seu casamento. Por uma feliz coincidência, Sandra costuma ouvir sempre a "sua" música no rádio do carro. Uma emissora carioca parece estar programada para tocá-la todos os dias, às 11h. A ouvinte especial está sempre sintonizada.
Sandra Gadelha: "Desde meus 14 anos, todo mundo em Salvador me chamava de Drão. Fui criada com Gal [Costa], morávamos na mesma rua. Sou irmã de Dedé, primeira mulher de Caetano. Nossa rua era o ponto de encontro da turma da Tropicália. Fui ao primeiro casamento de Gil. Depois conheci Nana Caymmi, sua segunda mulher. Nosso amor nasceu dessa amizade. Quando ele se separou de Nana, nos encontramos em um aniversário de Caetano, em São Paulo, e ele me pediu textualmente: 'Quer me namorar?'. Já tinha pedido outras vezes, mas eu levava na brincadeira. Dessa vez aceitei.
Engraçado que Gil mesmo não me chamava de Drão. Antes havia feito a música 'Sandra'. Já 'Drão' marcou mais. Estávamos separados havia poucos dias quando ele fez a canção. Ele tinha saído de casa, eu fiquei com as crianças. Um dia passou lá e me mostrou a letra. Achei belíssima. Mas era uma fase tumultuada, não prestei muita atenção. No dia seguinte ele voltou com o violão e cantou. Foi um momento de muita emoção para os dois.
Nos separamos de comum acordo. O amor tinha de ser transformado em outra coisa. E a música fala exatamente dessa mudança, de um tipo de amor que vive, morre e renasce de outra maneira. Nosso amor nunca morreu, até hoje somos muito amigos. Com o passar do tempo a música foi me emocionando mais, fui refletindo sobre a letra. A poesia é um deslumbre, está ali nossa história, a cama de tatame, que adorávamos. No começo do casamento moramos um tempo com Dedé e Caetano, em Salvador, e dormíamos em tatame. Durante o exílio, em Londres, tivemos de dormir em cama normal. Mas, no Brasil, só tirei o tatame quando engravidei da Preta e o médico me proibiu, pela dificuldade em me levantar.
A primeira vez em que ouvi 'Drão' depois que Pedro, nosso filho, morreu [num acidente de carro em 1990, aos 19 anos] foi quando me emocionei mais. Com a morte dele a música passou a me tocar profundamente, acho que por causa da parte: 'Os meninos são todos sãos'. Mas é uma música que ficou sendo de todos, mexe com todo mundo. Soube que a Preta, nossa filha, chora muito quando ouve 'Drão'. Eu não sabia disso, e percebi que a separação deve ter sido marcante para meus filhos também. As pessoas me dizem que é a melhor música do Gil. Djavan gravou, Caetano também. Fui ao show de Caetano e ele não conseguia cantar essa música porque se emocionava: de repente, todo mundo começou a chorar e a olhar para mim, me emocionei também. E, engraçado, Caetano é o único dos nossos amigos que me chama de Drinha."
Fonte: http://mpbbossa.blogspot.com.br/2013/04/por-tras-da-letra-drao-gilberto-gil.html
Assinar:
Postagens (Atom)

