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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Gal

"Gal tinha vindo da Bahia, como eu, na esteira de Bethânia e Gil, para tentar profissionalizar-se. Ela nunca tinha querido nada em sua vida a não ser cantar. Era-lhe inimaginável querer ser outra coisa que não cantora. Gil formara-se em administração e exercia a profissão; Bethânia sonhara em ser atriz e chegara a escrever contos e fazer esculturas de madeira e cobre; eu já fora pintor, quisera ser professor e ainda queria ser cineasta; mas ela seria cantora ou nada mais. Desde criança - Dedé contava - Gal usava as panelas da cozinha para fazer o som de sua voz voltar ampliado aos seus próprios ouvidos, e assim poder exercer melhor controle sobre sua emissão, como se estivesse num estúdio de gravação."

(Caetano Veloso, Verdade Tropical, p. 151)

As Curvas da Estrada de Santos

Uma visita comovente foi a que nos fez Roberto Carlos. [...] Roberto veio com Nive, sua primeira mulher, e nós sentíamos nele a presença simbólica do Brasil. Como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a baixada brasileira em Londres e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas de esquerda, que a princípio não nos entenderam e agora queriam nos mitificar: ele era o Brasil profundo. Conversando sobre a gravação de seu novo disco, Roberto pegou meu violão e cantou - dizendo, sem nenhuma insegurança, que iria nos agradar - "As Curvas da Estada de Santos". Essa canção extraordinária, cantada daquele jeito por Roberto, sozinho ao violão, na situação em que todos nos encontrávamos, foi algo avassalador para mim. Eu chorava tanto e tão sem vergonha que, não tendo um lenço nem disposição de me afastar dali para buscar um, assoei o nariz e enxuguei os olhos na barra do vestido preto de Nice, enquanto Roberto repetia com ternura: "Bobo, bobo."

Caetano Veloso, Verdade Tropical, p. 415

Aquele Abraço

"Muito mais vivo em minha memória está o momento em que Gil me mostrou "Aquele Abraço", canção que ele cantaria pela primeira vez em público naquele show. Estávamos na sala da casinha da Pituba e o samba me fez chorar. O brilho e a fluência das frases, a evidência de que se tratava de uma canção popular de sucesso inevitável, o sentimento de amor e perdão impondo-se sobre a mágoa, e sobretudo o dirigir-se diretamente ao Rio de Janeiro, cidade que sinto tão intimamente minha [...] tudo isso me abalava fortemente e eu soluçava de modo convulsivo. No show, a plateia também foi tomada pela música, e cantou-a com Gil como se já a conhecesse de muito tempo. O lugar de onde a ironia se punha nessa canção - que parecia ser um canto de despedida do Brasil (representado pelo Rio, como é tradição) sem sombra de rancor - fazia a gente se sentir à altura das dificuldades que enfrentava. Aquele Abraço era, nesse sentido, o oposto do meu estado de espírito, e eu entendia comovido, no fundo do poço da depressão, que aquele era o único modo de assumir um tom de "bola pra frente" sem forçar nenhuma barra."

Caetano Veloso, Verdade Tropical, P. 410

Caetano sobre Gil

"É preciso, para entender essas minhas suposições, que se saiba melhor quem é, para mim, Gilberto Gil. Eu teria que me deter, mais cedo ou mais tarde, na apreciação dessa figura - tão central nessa história e tão unida à minha que, de certa forma, constituímos juntos uma espécie de entidade.

Fiquei intimidado com a possibilidade real do encontro: que graça poderia ter eu para "Beto"? E, dadas minhas limitações musicais e meu desinteresse por futebol ou outros temas masculinos, que assuntos em comum eu poderia ter com ele para sustentar uma conversa? Temi um encontro combinado resultando em minutos de silêncio constrangedor.

Roberto Santana me apresentou a Gil num encontro casual na rua Chile e nós todos nos sentimos inteiramente à vontade, cada um querendo falar mais do que o outro. [...] Algumas vezes, ao longo dos anos, ouvi, comovido, Gil dizer que ao me encontrar se sentiu saindo de uma espécie de solidão: ao me ver e ouvir teve certeza de que achara verdadeira companhia.

Ele criou a imagem de mim como mestre [...] e tornou-se, ele sim, meu verdadeiro mestre."

Caetano Veloso, Verdade Tropical