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quarta-feira, 9 de março de 2016

O dia em que uma crítica me fez gostar de um álbum



Não é exagero comparar João Gilberto aos Beatles. Ambos os artistas inventaram o universo musical que habitamos hoje, criando amálgamas sonoros que moldaram os ouvidos da segunda metade do século 20. De Liverpool, os quatro heróis britânicos ruminaram a música de rádio dos anos 50 (e não apenas o rock, mas também soul, standards, doo-wop, rockabilly, country, surf music, folk e R&B), devolvendo-a ao resto do mundo como uma sonoridade sólida, coesa e autoral – que mais tarde o mundo chamaria apenas de “rock". Sua sacada: reduzir todo o instrumental a duas guitarras, baixo e bateria e mesmo assim manter o som cheio e vibrante. De Juazeiro, no norte da Bahia, nosso herói mascou o rádio dos anos 30 e 40 (e não apenas o samba, mas também jazz, músicas tradicionais, conjuntos vocais, samba-canção, música sertaneja, choro, música de fossa e o batuque), traduzindo-o para o resto do mundo como uma sonoridade igualmente sólida, coesa e autoral – que mais tarde chamaríamos apenas de “bossa nova". Sua grande sacada: reduzir todo o instrumental apenas para seu violão. Esse é um caso à parte. Enigmático, cheio de acordes dissonantes e inusitados, seu violão reinventava a tradição rítmica brasileira ao atrelá-la à harmonia moderna para sempre. Por cima, a voz. Que voz. Nem rompantes de divas de jazz, lamentos dramáticos do samba-canção ou cantos bon vivant dos clones de Sinatra. João canta com a intensidade de quem conversa, calmo e sereno, deixando o som vibrar o mínimo possível. Contou com Jobim na coordenação desse seu primeiro disco quando posicionou estrategicamente as coordenadas de seu novo mapa: seis partes de novos compositores, duas de Ary Barroso e uma de Dorival Caymmi, além de um tema quase religioso e duas quase instrumentais. Os Beatles injetavam juventude, velocidade e brilho a uma cultura popular que descobria os poderes da comunicação global. João veio logo depois, pedindo calma, mas não como um bedel. Com seu violão, plantou a semente de uma árvore de silêncio, que se infiltrou no imaginário mundial e acompanha a genealogia da música do fim do século. E se hoje não estamos berrando uns com os outros, culpe João.


Fonte: http://rollingstone.uol.com.br/listas/os-100-maiores-discos-da-musica-brasileira/bichega-de-saudadei-joao-gilberto-1959-odeonb/

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